sexta-feira, 5 de junho de 2026

Nos tribunais

 


Pois bem, MM.ª,

nosso amor a gente inventaria

agora pr'a se despedir

comigo, peço 

que fique [...] nossas juras de amor  

eterno, o horror, o inferno, o eterno

retorno que é dar conta

duns bons sentimentos


peço que fique 

também algum aprendizado,

não que eu não tenha nada

para ensinar, contudo, peço, 

sinceramente, que eu aprenda

alguma coisa com isto,

nem que seja para evitar

o desprazer de estar aqui de novo

com a senhora, embora 

nada contra a senhora, 

MM.ª, o problema

é comigo


peço, portanto, que fique 

comigo algum amor-próprio, 

se é próprio d'um homem 

vez ou outra reerguer-se 

e, se não for pedir muito, 

ainda nesta vida, 

não na outra

você, um dia meu sonho,

um dia também meu pesadelo,

agora, suponho, 

há de pedir a metade de tudo isto

o que me parece um bom trato

talvez até me pareça

bem-feito


antes feito do que perfeito

já dizia a justiça

nestes termos, por falta

de provas, pelo fato irreversível

de que se sobressalta

a intimidade e um pouco

de preguiça, fato raro

em matéria de litígio, 

eu, a indesejada

das gentes, das gentes

requisitada, do alto de quem vigio, 

vos declaro, se não felizes,

oficialmente satisfeitos


quinta-feira, 4 de junho de 2026

a vida, uma ópera


a primeira vez que fomos à ópera

achamos tudo um exagero

arrastado, ligeiro, não que soássemos

contraditórios na crítica

pelo contrário, parecíamos

tirar as palavras da boca

um do outro, você disse arrastado

eu disse é isto, claro, é isto!

arrastado, eu ia dizer ligeiro, mas não,

é isto! ao que você disse era isto! 

ligeiro, eu disse arrastado, mas sim,

o que eu queria dizer era ligeiro! conversa 

vai, conversa vem, decidimos 

nunca mais voltar 

ao teatro.


a segunda vez que fomos à ópera

já deitávamos à janela nossos acordos

reclinamos o corpo cada qual

para um lado do palco e assistimos 

e camarote ao mesmo mote

por mais de três horas, meu deus!

só piora!, você disse, 

não lembrava que isto era tão arrastado, 

e você defendendo que era ligeiro

ao que de pronto 

me defendi  você que disse

que era ligeiro, ora! eu ia dizer 

ligeiro, mas disse antes

que era arrastado, conversa vem,

conversa vai, não havia consenso

sobre quem disse primeiro

se era arrastado ou ligeiro, 

apenas que era tudo 

exagero. 


só voltei ao teatro anos depois

tudo muito comedido

e costumeiro, coincidência mesmo

foi ter te visto ao meu lado

faz anos que não venho ao teatro,

você me disse, bem, eu ia dizer, 

faz anos que não te vejo, mas, sim, 

anos que não venho ao teatro,

ao que respondi pois bem, veja só, 

que curioso, eu já ia dizer

faz anos que não te vejo, mas, sim,

anos que não venho ao teatro!

ao que você fechou a ouro 

nossa crítica, abrindo um último 

acordo, ligeiros fomos nós, imagina!

esse tempo todo e eles ainda

sequer deram um beijo!












conversa vai, conversa vem

decidimos nunca mais voltar ao teatro

domingo, 27 de junho de 2021

eu confundi um vaga-lume com um acidente de avião




Vamos, não chores. A pré-venda acabou mas o avião continua. E o humor? Vim agradecer a galera que comprou a ideia, fez o livro alçar voo e agora tem total responsabilidade nesse fato consumado. É um trabalho de três anos de pesquisa (em parte pela poesia, em parte pelo teatro) para chegar numa síntese: o lugar comum de um é a invenção da roda do outro. Na minha opinião, a roda da poesia é quebrar essa quarta parede, endereçar uma frase, ver no leitor a conversa e uma ação de convite. Primeiro, o poeta tem que sair do quarto, se sujar de mundo. Por sua vez, a roda do teatro é voltar a fingir, tão completamente, fazer do outro um ofício da língua. Bobagens à parte, esse é um livro que vê no leitor o mercado. Compre, divulgue, compartilhe. Indique a tragédia para um ente querido. E não, jamais confunda um vaga-lume com um acidente de avião. 

O livro está disponível no site da @macondo_edições.

Link aqui.


sábado, 29 de maio de 2021

eu confundi um vaga-lume com um acidente de avião



Conforme divulgado pela @macondoedicoes, meu livro está em pré-venda no site da editora, com 25% de desconto.

No mais, como escreveu Leminski: "Espero que todos se divirtam. Não há muito mais a fazer neste mundo".


Sobre o livro:

Há livros que nos pedem algum tipo de movimento, e outros que são não somente o próprio movimento em si, mas performam, em suas páginas, aquilo para que nos convida. Eu confundi um vaga-lume com um acidente de avião, livro de estreia do poeta Vinícius Mahier, consegue unir essas duas dimensões ao se apresentar como uma viagem (no amplo sentido do termo) e também como uma catástrofe. O que vemos nesse livro é um elogio à fratura, àquela violenta operada na linguagem, e também à dos próprios gêneros literários, que se apresentam aos leitores ora como uma peça lírica e poética, ora como uma narrativa complexa e intrincada, mas, na maioria das vezes, como uma dramaturgia em várias camadas.

Tateando por referências diversas do meio literário, musical e também da nossa mídia pop televisiva, o que temos nesse volume é uma canção desesperada, e uma carta de navegação dividida em três partes: “Penúltimo ato / I stop”, que mapeia as instabilidades da queda; “Penúltimo ato / somewhere”, em que o baque se anuncia nos poemas despedaçados; e “Penúltimo ato / waiting for you”, que acena à alegria e aos seus desencontros. Confusão, catástrofe, tragédia, desastre: não há palavra que disfarce um livro de amor.

Senhoras e senhores passageiros, eu confundi um vaga-lume com um acidente de avião. Tenham todos um bom final." 


Link da pré-venda