quinta-feira, 4 de junho de 2026

a vida, uma ópera


a primeira vez que fomos à ópera

achamos tudo um exagero

arrastado, ligeiro, não que soássemos

contraditórios na crítica

pelo contrário, parecíamos

tirar as palavras da boca

um do outro, você disse arrastado

eu disse é isto, claro, é isto!

arrastado, eu ia dizer ligeiro, mas não,

é isto! ao que você disse era isto! 

ligeiro, eu disse arrastado, mas sim,

o que eu queria dizer era ligeiro! conversa 

vai, conversa vem, decidimos 

nunca mais voltar 

ao teatro.


a segunda vez que fomos à ópera

já deitávamos à janela nossos acordos

reclinamos o corpo cada qual

para um lado do palco e assistimos 

e camarote ao mesmo mote

por mais de três horas, meu deus!

só piora!, você disse, 

não lembrava que isto era tão arrastado, 

e você defendendo que era ligeiro

ao que de pronto 

me defendi  você que disse

que era ligeiro, ora! eu ia dizer 

ligeiro, mas disse antes

que era arrastado, conversa vem,

conversa vai, não havia consenso

sobre quem disse primeiro

se era arrastado ou ligeiro, 

apenas que era tudo 

exagero. 


só voltei ao teatro anos depois

tudo muito comedido

e costumeiro, coincidência mesmo

foi ter te visto ao meu lado

faz anos que não venho ao teatro,

você me disse, bem, eu ia dizer, 

faz anos que não te vejo, mas, sim, 

anos que não venho ao teatro,

ao que respondi pois bem, veja só, 

que curioso, eu já ia dizer

faz anos que não te vejo, mas, sim,

anos que não venho ao teatro!

ao que você fechou a ouro 

nossa crítica, abrindo um último 

acordo, ligeiros fomos nós, imagina!

esse tempo todo e eles ainda

sequer deram um beijo!












conversa vai, conversa vem

decidimos nunca mais voltar ao teatro

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