a primeira vez que fomos à ópera
achamos tudo um exagero
arrastado, ligeiro, não que soássemos
contraditórios na crítica
pelo contrário, parecíamos
tirar as palavras da boca
um do outro, você disse arrastado
eu disse é isto, claro, é isto!
arrastado, eu ia dizer ligeiro, mas não,
é isto! ao que você disse era isto!
ligeiro, eu disse arrastado, mas sim,
o que eu queria dizer era ligeiro! conversa
vai, conversa vem, decidimos
nunca mais voltar
ao teatro.
a segunda vez que fomos à ópera
já deitávamos à janela nossos acordos
reclinamos o corpo cada qual
para um lado do palco e assistimos
e camarote ao mesmo mote
por mais de três horas, meu deus!
só piora!, você disse,
não lembrava que isto era tão arrastado,
e você defendendo que era ligeiro
ao que de pronto
me defendi você que disse
que era ligeiro, ora! eu ia dizer
ligeiro, mas disse antes
que era arrastado, conversa vem,
conversa vai, não havia consenso
sobre quem disse primeiro
se era arrastado ou ligeiro,
apenas que era tudo
exagero.
só voltei ao teatro anos depois
tudo muito comedido
e costumeiro, coincidência mesmo
foi ter te visto ao meu lado
faz anos que não venho ao teatro,
você me disse, bem, eu ia dizer,
faz anos que não te vejo, mas, sim,
anos que não venho ao teatro,
ao que respondi pois bem, veja só,
que curioso, eu já ia dizer
faz anos que não te vejo, mas, sim,
anos que não venho ao teatro!
ao que você fechou a ouro
nossa crítica, abrindo um último
acordo, ligeiros fomos nós, imagina!
esse tempo todo e eles ainda
sequer deram um beijo!
conversa vai, conversa vem
decidimos nunca mais voltar ao teatro
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